Humanos ou não?

Vez por outra, certos fatos tornados públicos costumam chocar momentaneamente as pessoas de maneira geral. É uma demonstração visceral de crueldade aqui, ou mesmo atos de profunda insensibilidade ali. A atmosfera circunstancial parece nos fazer mais desumanos. Ou, se preferir, menos humanos. Estamos nos acostumando à frieza e à indiferença.  

Não acredito que o ser humano seja o centro de tudo. Mas acredito que a humanidade está se desumanizando aos poucos. Perdendo sua capacidade de ser humana no melhor sentido da palavra. Gradativamente, conferimos maior importância ao que temos e ao que construímos, ou “criamos”. As tecnologias, sobretudo as digitais, exibem-se como maravilhosas aos nossos ingênuos olhos. Tornam-se nosso auxílio para ler, escrever, desenhar, caminhar, correr, comer, aprender, pensar e até amar. E são valiosos instrumentos de apoio mesmo.

Mas não são genuinamente humanas. São inteligências, são sistemas, mecanismos, processos. Sim. Mas nós ainda somos nós. Ou deveríamos ser. Gente que vive a intensidade de uma experiência singular. Que se reporta ao infinito, ao divino, como nenhum outro tipo de conexão pode estabelecer. Que vê no outro a si mesmo. Que lê o que nem sempre está escrito. Que consegue ouvir quando nada está sendo dito.

Ah…nós, os humanos. Frágeis, falhos, fracos e feridos. Mesmo assim, somos peculiares. Diferentes do que ainda nós mesmos venhamos a inventar. Somos, de certa forma, únicos. Por isso, ainda não somos substituíveis. Estamos desenvolvendo e é importante desenvolver ainda muitas ideias de projetos. Mas não esqueçamos: somos um grande projeto. E caminhar para a desumanização nos fará perder a identidade.

Máquinas, ainda que com inacreditáveis capacidades, não serão o que o ser humano se constitui em essência. É preciso olhar um pouco mais para a humanidade com misericórdia. E não tanta raiva. Com mais amor. Não o sentimento superficial. Mas o amor advindo do real interesse pela dignidade da vida.

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