
Na Vila do Descanso, lugar que pode ser qualquer outro para cada um, a vida anda devagar. Aliás, para alguns, arrasta-se. No ritmo de uma tartaruga sem muita motivação, o tempo parece que não passa. Os dias são iguais aparentemente. Os cenários mudam quase milimetricamente, imperceptíveis ao olhar frenético dos seres agitados das grandes cidades. Nada de grandes alterações. As pessoas se conhecem desde sempre. Nunca se tornaram estranhas. A vida segue um ciclo diferente. A pressa quase nem se faz presente.
Nesse lugar, o que importa é o lugar. E as pessoas. E as vidas que se cruzam e se entrelaçam. Há metas. Mas a maioria não almeja alcançá-las a qualquer custo. Há sonhos, mas talvez não sejam tão ambiciosos. Nem tão altos ou sofisticados. Os dramas permeiam as relações, mas sempre com uma dose de simplicidade. O trânsito das ruas é ruim, mas não é tenso. Os marcos do passado contam mais do que as prospecções futuras. É mais digno relembrar uma boa história antiga do que só querer enxergar o que ainda vem pela frente.
Para muitos, a vida de certa maneira congelou nesse lugar. Alguns se fixaram em determinado ponto pretérito em busca de um sentido que talvez nunca encontrem para sua existência. E convivem com isso relativamente bem. Na Vila do Descanso, as conversas são mais demoradas. Ouve-se mais. Olha-se mais. São percebidos os detalhes das flores, dos frutos, dos animais. As cores são vívidas diante dos sentidos bem aguçados de quem investe tempo para contemplar.
A vida e a morte coexistem bem. Quase todos compreendem que há tempo para tudo. Para ir e voltar. Pegar e largar. Sair ou entrar. Vivenciando verdadeiramente o momento. Degustando o tal do enigmático presente. Cultivando relações. Sentindo e sentindo-se.
A vida por lá vai devagar. Mas vai de um jeito que faz mais sentido para quem quer ter vida.