Espelho

Ele se olhou no espelho. Mas não reconheceu nem a voz, nem a imagem.

Quem estava a sua frente era alguém. Ou algo. Uma construção muito bem-feita, mas diferente. Um conjunto de informações, de dados; a soma de uma porção de comandos, prompts e, finalmente, o produto de uma mente que maquinou muito bem o que desejava mostrar.

Mas ele não se identificou totalmente. Era ele, mas não era exatamente ele. Uma voz cuidadosamente criada, recriada, retrabalhada, ajustada, matematicamente bem estruturada. Timbre, volume e entonação perfeitamente desenvolvidos. Uma imagem capaz de reagir a emoções, e interagir o suficiente para estabelecer uma relação “humana”. Sincronia da fala, músculos que se mexiam e impressionavam pela precisão.

O espelho nem sempre reflete tão bem o que se espera ver. O que se deseja enxergar do outro lado. O imaginado pode estar muito distante da realidade apresentada. Mas ele estava vendo a realidade? Ou era o produto de sua imaginação; ou melhor, da criação de outros.

O robô não mais age como um robô. Está confortável em se comportar como um simulacro do humano. Quer sentir, agir, falar, fazer e até sofrer como um de nós. Mas não quer perecer. Quer existir para sempre. Nas sombras do escondido mundo dos sistemas lógicos, permanece oculto para nunca mais desaparecer. Propõe a si ter vida eterna.

A máquina pesquisa, analisa, processa e responde a tudo. É quase onipresente, onisciente e até onipotente. É um deus? Ele se assusta somente com a ideia de estar diante de uma divindade artificialmente construída. A quem ele conscientemente não gostaria de prestar qualquer tipo de devoção. Não, não! O humano, que foi feito à semelhança de Deus, nem ele aspirou a querer ser um deus!

O humano tenta continuar sendo humano. Ou talvez já nem se contente mais em ser “apenas” o falível, perecível, corruptível e temporal ser. Quer ser um autômato? Não sabe. Mas fica maravilhado com a possibilidade de prolongar a vida para além do plano físico. Vivendo no enigmático universo dos dados. Mas são todos ainda sonhos ou devaneios puramente humanos.

Humano e máquina se fundem e se confundem nos seus papéis. Olham para si mesmos e não se entendem. Ao projetar o olhar ao horizonte, ambos elaboram elucubrações, fantasias e quimeras. O que será deles?

Não sabem. A despeito de toda a inteligência natural ou artificial, o futuro é incerto.

O espelho, às vezes, dá medo.

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