
No multiverso em que Raimundo vive, mas que ele não sabe, ou finge que não sabe que é um mundo à parte, tudo pode acontecer. Até mesmo nada. Todos os dias ele acorda em um universo paralelo. Raimundo imagina que sonha ou sonha imaginando que seu mundo é perfeitamente diferente dos outros mundos. Que, por sinal, ele nem conhece. Mas, para Raimundo, seu mundo só pode ser melhor.
No estranho mundo de Raimundo, as pessoas reclamam do que ainda não conheceram, nem provaram, nem testemunharam. Mesmo sem saber com quem estão falando, acusam o outro de coisas que ele nunca fez ou está fazendo. Mas, quem sabe, um dia fará. Neste planeta diferente, há muita informação circulando, mas pouco entendimento. Uma porção de fatos são compartilhados, mas quase todos não ocorreram exatamente daquela forma. Raimundo aprendeu que, em seu mundo, sim nem sempre quer dizer sim. E não é um depende das circunstâncias, do que se pode ganhar com isso.
Raimundo prefere totalmente seu mundo apesar de nunca ter visto como os outros funcionam. E adivinha só: seu mundo gira em torno do seu próprio eixo. Em uma velocidade tão grande quanto é a rapidez dos precários relacionamentos estabelecidos pelos moradores isolados e solitários. O mundo de Raimundo está sempre lotado de seres humanos, mas ninguém sabe quem é quem.
Muitos, no mundo de Raimundo, só vivem nas sombras. Nunca a luz os ilumina. Nunca veem o dia claro, mas apenas a noite sombria. Os dias passam e, para muitos neste mundo, pouca diferença faz se é o início ou final de um ano. Costumam dizer, no mundo de Raimundo, que tudo é meio cíclico; nada é perene, nada tem de perdurar. Os momentos e as experiências é que contam no inigualável mundo de Raimundo. Mesmo que sejam destituídas de qualquer sentido. Vazias mesmo. Muitos, no mundinho de Raimundo, vivem de forma excêntrica; porque o centro de equilíbrio não é mais equilibrado como em outros tempos e em outros mundos. O melhor é ir aos extremos, dividir, divergir mesmo sem razão específica; agredir, combater e ser combatido.
No mundo de Raimundo, ensinam que as palavras têm mais força do que qualquer outra atitude. E que elas mudam tudo. Ironicamente, o mundo de Raimundo sempre é o mesmo. Nunca muda de fato. Mas só fala em mudanças.
Raimundo se orgulha de um mundo em que muito se conhece sobre o cérebro e a mente humana. Mas nada de pensar muito. O melhor é agir. A impulsividade dita os comportamentos estranhos do mundo de Raimundo, ainda que se fale muito em prudência e cautela. Nesse universo, os discursos superam as ações. E atribuem fama aos falantes, ainda que muitos deles mal consiga se reconhecer no espelho.
No estranho mundo de Raimundo, aprecia-se fazer perguntas e nunca ouvir as possíveis respostas. É maravilhoso e recomendável, no mundo de Raimundo, proclamar virtudes que nunca se transformam em uma vida melhor para todos. Só para poucos escolhidos. Que nunca se consideram privilegiados.
Mesmo assim, Raimundo exalta seu mundo. O melhor de todos.
Pena que ele nunca esteve em qualquer outro. Porque não consegue encontrar a saída do seu.