
Os tempos de hoje são estranhos para quem já viveu bastante o ontem. Quando se analisa meticulosamente alguns comportamentos, tipicamente moldados pela influência do digital, dá para ver que voltamos a reproduzir velhos hábitos.
No passado bem distante, pessoas fingiam ser uma coisa que não eram e contavam mentiras umas para as outras nas reuniões sociais. Em volta das mesas fartas de comida e bebida, em palácios ornamentadas para causar uma forte impressão, falsos ricos contavam vantagens que nunca tiveram e falavam de bens que nunca possuíram. Tantos outros exibiam suas perucas para esconder a inevitável calvície, ou bebiam vinho desenfreadamente para se enganar e ser enganados em uma ilusão cíclica.
Hoje pouco mudou. Vejo “nas redes” políticos fazendo vídeos com teatrinhos de 30 segundos para simular preocupações humanitárias. Atores e atrizes não são mais os únicos a encenar sem empolgar muito. Aliás, muitos deles estão perdendo emprego. E não é para os implacáveis algoritmos que já desempregam quem ainda insiste em lutar contra os tempos cibernéticos.
Os profissionais das artes cênicas concorrem com gente anônima. Pessoas sequiosas por fama e capazes, sempre, de criar e recriar vidas que só existem de fato nos escassos minutos de atenção cuidadosamente elaborados por meio dos cortes, dos shorts, dos POVs.
Gente que encena uma vida com pouco ou quase nada a ensinar. Predomina a verdadeira idolatria por aquilo que é simulado. São os tempos de extrema necessidade de mostrar o que não existe para que talvez se torne uma realidade virtual. Frases, imagens, vídeos, posts e tudo junto e misturado na vã tentativa de que algo, ou alguém passem a fazer sentido.
Mas quase tudo agora é fake. Não é a boa reprodução para ser melhor e seguir em autossuperação. É a invenção mesmo em forma de grandiosas, faustosas e opulentas vivências mentirosas. Que só passam a existir na imaginação dos desesperados pela divindade chamada engajamento.
Divindade essa que, de fato, é tão efêmera quanto a vida dos que a buscam.

