Consumindo-se

O consumismo é a doença perniciosa que mata devagar. É reflexo da adoração do próprio eu, quando me volto a mim mesmo para ter tudo o que quero. Mesmo sem precisar. Mesmo que outros mereçam mais. O consumo como máximo valor da vida é uma expressão do valor mínimo que, na verdade, considero que tenho.

A lógica do mundo, apesar dos discursos falsamente preocupados com a coletividade, é a do consumo desenfreado. É a prova de que uns são ou se posicionam como melhores do que outros. Mais modernos, mais ricos, mais inteligentes, mais sintonizados com as tendência e modas.

O consumismo, no entanto, é um fim em si mesmo. O que por ele é vencido nada mais possui. Está restrito ao ter em excesso; ao viver para consumir e consumir para viver. Vagueia entre uma compra e outra, entre um sonho material e outro ainda mais mundano. Hostiliza o simples. Detesta a modéstia. Alimenta a sua concupiscência. Adere ao hedonismo. Ainda que finja, muitas vezes, fugir dessa realidade e se autoproclamar livre de todo o vício. Simula virtudes que inconscientemente não deseja nutrir.

Consumir para consumir-se é a fatalidade a que muitos se sujeitam.  É a declaração clara da perda do autodomínio. Relaciona-se muito próximo à inveja e à cobiça. Nasce da insegurança e termina na descrença própria. É um buraco muito escuro no qual muitos se lançam e imaginam que, a qualquer momento, podem retornar e passar a enxergar a luz.

Triste engano.

O caminho do consumismo é brilhante, reluz e impressiona. E também esconde as curvas que desviam em direção a um precipício quase infinito. Inibe a racionalidade a ponto de não se saber mais sequer qual o caminho a percorrer. Nem se saber o que é buscado. Tudo o que se pensa é sobre ganhar, adicionar, acumular e obter. Até o próprio eu é perdido de vista.

Exceder-se consumindo é se deixar ser consumido totalmente. É a consumação da própria existência. Da vida que compensa. Que merece ser vivida. O olhar míope que só enxerga a frágil e temporária permanência no mundo não permite a visão mais ampla.

É preciso abrir-se e sair da limitante realidade paralela do consumismo. A verdadeira doença do século. Não diagnosticada em exames laboratoriais, nem com os mais precisos equipamentos da alta medicina. Mas que drena a essência das pessoas.

Mas que só pode ser vencida se sairmos de nós mesmos. É necessário olhar para o lado e para o Alto.